terça-feira, 30 de agosto de 2011

Redoma

   A música que toca na minha cabeça, mesmo antes de virar a chave de casa, cessa na presença do ambiente escuro, da sala mal iluminada. Viro um escravo da minha mente quando as paredes param de martelar e os murmúrios cessam por entre as portas. Entro na sala de minha casa, mas a sensação que sinto é a de um peregrino ao adentrar em mais um quarto de hotel. É uma coisa estranha, uma frieza que se assemelha à observação de uma parede branca, à agonia dos pontos brancos que se fundem entre outros pontos brancos e formam uma cor de aflição, de ansiedade. Não se trata de uma aceitação de "não-expectativas", trata-se de uma série de significâncias que se solidificam como gelo. Todas elas agindo em série, uma após a outra, tudo proporcionando a condensação de uma só sensação, aflita dentro dos afazeres do cotidiano. 
   Ando meio distraído com várias coisas. Muito preocupado com outras. Às vezes tão preocupado que muitas vezes é isso que me salva de uma série de reflexões que me apontam um ponto preto sob uma mesa redonda e incolor. Um ponto que à medida que o pensamento flui para o horizonte da alma e aumenta o ponto cresce, até que o ponto vira um chão, um buraco, uma sensação de vazão daquilo que eu procuro tentar entender daonde sai. É um fluido vívido que escoa para fora de meu ser, abarrotado de sensações e emoções, me tornando um recipiente vazio, denso de tanto vácuo que me envolve e eu não sei responder. 
  Eu fico pensando se essa não é a real sensação que me dá a inspiração para tentar condensar meus pensamentos em linhas e letras. Esse "desabafo literal" que me traz à tona tudo aquilo que deixo preso e encrustado durante dias ou horas. Tudo aquilo que me aflige e sempre me amputa várias das ações que poderiam muito bem preencher o espaço. É o Vácuo que suga. É o Vácuo que volta para dentro e transforma tudo numa redoma de vidro.

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