sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Chave

Saio de casa para pegar um lanche que me espera lá embaixo, a quatro andares de distância. Tranco a porta mesmo sabendo que voltarei em dois minutos. Desço as escadas e mais uma porta trancada. Fico imaginando toda a essa obsessão que nós temos por trancar coisas. Trancar nossas coisas, nos trancarmos. Eu me fecho à medida que o resto todo vai se mostrando algo diferente daquilo que procuro o dia inteiro. Eu tranco minhas reações com sete chaves toda vez que vejo que elas são impróprias para o meio que me cerca. Eu enxergo o meio e chaveio tudo aquilo que ele não suporta.
Nos trancamos em cubículos para pensar sobre a vida, sobre as questões a serem feitas, o trabalho. Eu tranco tudo aquilo que não me serve para o momento, aquilo que não posso libertar em certas horas. Pensar nisso exige tempo, exige um estudo, uma reflexão sensata dos ambientes, das personalidades que compõem o sistema. 
Não é uma questão de tentar mudar o tempo inteiro, mas sim se ter a noção de tudo aquilo que pode ser jogado para cima da sociedade. Omitir não é colocar a máscara. Muito pelo contrário. Omitir é necessário para se identificar as máscaras e tudo aquilo que talvez seja encenado, mal distribuído. E é omitindo que eu observo, reajo. É omitindo que eu me tranco e protejo tudo aquilo que não poderia dar certo se observado.

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