domingo, 2 de outubro de 2011

Preconceito, Metal e desatualização


 Eu fico impressionando com a quantidade de pessoas, jornalistas experientes, com uma bagagem histórica e cultural de peso e reconhecimento, conhecedores de verdades que muitos sequer vão ter conhecimento alguma vez na vida, seres humanos já de idade relativamente avançada, com anos de experiência, que ainda famigeram e reviram raízes de atitudes preconceituosas que, ao meu ver, são fruto de um pensamento de muito baixo nível, de uma cabeça fechada, com uma visão direcionada somente para um único ponto de vista. Algo que não parece ser compatível com profissionais tão bem rodados no seu ramo de mercado e que necessitam de uma posição imparcial sobre todos os assuntos, afinal, são eles os responsáveis pela formatação da informação que chega no seu jornal e na sua televisão. Estas foram algumas das características que concluí ao ler a coluna do jornalista Flávio Tavares, na Zero Hora de 2 de outubro de 2011, página 14, entitulada "Rock in Frio".

[ATUALIZAÇÃO] 


    Encontrei o link da coluna escrita por Tavares na internet. Ela pode ser lida neste link   . É importante que o leitor deste post também leia a coluna de Tavares, para que assim tire suas próprias conclusões. Comentários e críticas também são muito benvindos aqui no blog!

    Para não transcrever todo o texto de Tavares aqui, darei uma certa descrição, juntamente com uma interpretação estritamente pessoal do meu ponto de vista em relação às palavras escritas pelo jornalista. No seu texto, Tavares critica a música e o gênero pesado do heavy metal e derivados como "um fanatismo alucinado, travestido de música e plateia". Ainda, chega a chamar o estilo de "pseudomúsica", como se não fizesse parte de uma cultura ou uma forma de expressão, como qualquer outra.  

    Além de chamar os metaleiros e apreciadores do gênero de "alienados" ao descrever a manifestação do público com o popular gesto símbolo do heavy metal, Tavares ainda liga o gênero de uma maneira que nos dá a entender que o movimento incita a violência devido ao som pesado e aos solos rápidos de guitarra. Ok, muitas letras de metal de fato incitam a prática de certos atos ou expressam sinais de indignação, afinal, a música é uma forma de expressão. O que não concordo com Tavares é a forma de como ele coloca em seu texto de que "a violência é cultivada num longo processo, no qual a pseudomúsica é um dos fatores iniciais [...]". Pseudomúsica?  É como se ele quisesse dizer que o Metal, as bandas e as letras são responsáveis por incitar e cultivar a violência em uma forma de expressão que só está aí para machucar e causar o caos. Mais uma interpretação errônea sobre o heavy metal. 

   É importante salientar que não são só metaleiros e metaleiras que alguma vez já praticaram atos de violência. O comportamento violento e as ações de agressão são fatores que, ao meu ver, transpõem características que são muito mais marcantes na nossa sociedade do que o "gosto musical". Eu cresci ouvindo Black Sabbath, Iron Maiden e Metallica e sequer briguei alguma vez na vida. Na quase totalidade de festivais de rock que eu fui, de metal, shows de bandas famosas, eu nunca vi uma briga sendo proferida, ou qualquer ato de agressão física que tinha como objetivo machucar outra pessoa. Eu me pergunto se Tavares alguma vez já conversou com homens e mulheres trajados de preto, com tatuagens e piercings no rosto. Ao meu ver, a sua coluna é uma interpretação equivocada de quem ainda não teve a oportunidade de ver o outro lado da moeda. Ainda mais, seria Tavares alguém tão fechado em suas próprias culturas a ponto de criticar aquilo que ainda não foi observado? Como ele se sairia na propaganda da Carlsberg? Julgaria pelas aparências como o fez em seu texto ou se sentaria confortalvemente ao lado de motoqueiros? 



     Mas eu entendo o ponto de vista de Tavares. É natural para pessoas que não convivem com o gênero acharem que metaleiros são psicopatas lunáticos ao se depararem com uma roda punk, uma wall of death ou um amontoado de jovens se empurrando de um lado para outro. Tavares acha que aquilo que praticamos em nossos momentos de libertação ao ouvir o nosso som favorito deformam o pensamento dos jovens e expressam a real personalidade de todos os presentes em eventos de metal. E é por isso que eu me pronuncio aqui, pois acredito que é a obrigação de todo praticante de um movimento cultural a defesa de seus atos diante de uma crítica como a de Tavares. Não somos violentos, não somos piscóticos ou sedentos por sangue. Somos seguidores de uma forma de expressão, de uma cultura que, por sinal, demonstra-se muito mais difundida em grupos sociais de "mente aberta" do que muitas outras e acho inadmissível um ataque como o de Tavares à tudo aquilo em que eu me criei e aprecio. 

     Ainda não satisfeito, Tavares ataca também a liberdade de expressão corporal de hoje, o que entende-se por uma forma de preconceito contra todos os usuários de piercings e tatuados do Brasil. Outro ataque que acho lamentável, vindo de uma mente tão experiente como a do jornalista. 

    Enfim, a coluna de Tavares em seu texto "Rock in Frio" encaixam-se em mais uma forma desatualizada de se enxergar o mundo de hoje, algo muito comum em pessoas de idade avançada que insistem em continuar com seus costumes austeros, forçando uma redoma de vidro em volta da sua bagagem cultural, incapazes de se atualizarem. O que realmente me entristece e me deixa irritado é que pessoas que ainda não aceitam certas formas de expressão como a modificação corporal são também responsáveis por distorcer a realidade ao criticar atos e nomear os apreciadores de estilos como uma manada de bois ou um exército de ignorantes que se juntam para bater cabeça. É a tendência de unidirecionar todos aqueles praticantes de um só ideal e forma de expressão e formar uma espécie de Leviatã, uma aberração que parece estar "abaixo" dos demais. É como se todos que ouvissem metal fossem praticantes da violência ou "alienados", e por causa disso escutam metal. Não, eu não sou alienado e muito menos praticante de violência e não admito ser julgado dessa maneira. Deixo aqui então o meu protesto a todo este tipo de gente que ainda não aceita o mundo como ele realmente é. 

Ouvindo: REFUSE/RESIST - SEPULTURA (Senhor Tavares, esta eu recomendo!)

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