segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Domingo Animal

    Esse é para todos aqueles que acham que domingos, feriados e todo esse período de ócio total é uma baita porcaria.

    Ao contrário da maioria dos cafagestes que andam por aí, Leonardo era bom com números, com contas, com literatura e ainda sim conseguia ser um cafageste nas horas vagas. Sua natureza era fechada, inabalável. Seus pensamentos eram guardados somente para si, em forma de livro, vídeo ou de longos monólogos, muitos destes, mentais, em lugares desconfortáveis. Era uma forma que ele havia achado de tentar se refugiar em notas e paraísos que poderiam transceder aos seus olhos, fazendo-o esquecer da agonia e de toda aquela gente que o rodeava. 
  Mas Leonardo, ainda assim, era um cafageste. Por que? Sua natureza o mandava. Seu desejo consumidor, a necessidade de posse de algo que nunca foi o seu forte. Aquela palpitação do coração por uma adrenalina compulsiva, um perigo, uma sensação. E era justamente o que Leonardo fazia, sempre de três em três domingos. Mudava completamente a sua personalidade. Tornava-se o personagem que quisesse, vestia as roupas que bem entendesse. E saía Leonardo, mais uma vez, em busca do seu desejo carnal e cruel. A vontade era tamanha que a porta não fechava direito e os seus pés dentro daquele par de cuturnos pretos e surrados tremiam a cada passo para fora da casa, da fortaleza, do refúgio mental de alguém que despreza o lado de fora. 
    Ele caminhava rápido, forte. O vento gelado batia-lhe no rosto, como se esculpisse as suas feições. Passa por um, dois, três bares. Toda aquela gente berrando, entregando-se aos instintos mais primitivos quase todos os dias, sem nenhuma noção ou diretriz que os controle deste comportamento animal. Parecia ironia, parecia orgulho, mas Leonardo olhava para aquelas pessoas com um desdém imenso, um ódio que não era capaz de suportar. Indignava-se com o fato de que milhares e milhares de pessoas são capazes de se entregar ao animal,  negligenciando o maior triunfo da humanidade: a própria razão. 
   Ele lutava contra o seu instinto. Gritava, batia, machucava-se e suportava até a última gota de esforço. Era algo que o dava prazer, que o fazia sentir o formigamento da pele e a adrenalina subir, mas era algo animal, algo que estava ali desde o seu nascimento, uma besta escondida por entre uma personalidade fechada e quieta. Algo vergonhoso, que o abatia à medida que o tempo passava e a necessidade.aumentava. Com passos cada vez mais largos, a espírito cada vez mais inquieto, ele chega ao seu destino. O coração bate tão alto que no silêncio é capaz de sentir um martelo no peito. Está chegando a hora, está chegando perto.
    Ao andar cada vez mais perto, aquele homem robusto se encontra cada vez mais próximo de arrancar essa dor, essa sensação de necessidade, de voltar a ser aquele austero professor. A cada metro que se passa a sua cabeça vai latejando cada vez mais. Uma dor por trás dos olhos aumenta, uma pressão por entre as veias do seu cérebro o faz parecer uma panela de pressão. Ele sente vontade de gritar, de sair correndo e de realizar o serviço o mais rápido possível. O doce ar da loucura e do descontrole é algo que todos possuem a vergonha de admirar. É o que nos aproxima das sensações mais animalescas, é uma natureza primitiva, um coração apoteótico que pulsa dentro do peito de todos. Humanos simplesmente esquecem que, antes da razão, antes do saber, eram animais. E mascaram suas necessidades com todo e qualquer vício do século XXI. O seu instinto primitivo por trás de bebidas, de sensações proibidas e de desejos promíscuos. Por mais diferente que possa parecer, Leonardo era somente mais um. Alguém que enxergava a sua necessidade e reconhecia toda a vergonha de sua natureza. Chegando ao seu destino, ele adentra em um lugar escuro. Gritos ecoam e as paredes sentem um grande e poderoso impacto. Algo caindo e lá se foi mais um domingo e o ciclo começa novamente.

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