São 2h da manhã. A noite não é generosa quando os olhos começam a arder pelo trabalho duro. O frio intensifica e o vento gelado arrepia a nuca, deixando tudo mais vivo. O tremor e o bater dos dentes às vezes nos faz sentir mais vivos. Nos remetem a todos aqueles objetivos que tanto traçamos, mas que 2 ou 3 meses depois viram somente anotações empilhadas no meio dos rascunhos. Porém, a tragédia de se enfurnar em um aposento com um quarto, uma cozinha e um banheiro muita vezes pode ser a chave para uma epifania miraculosa, e o frio - sempre presente - dá o gosto da libertação. O vento que bate na sacada é tamanho que os pés gelam, a barriga e dorso tremem para tentar manter a temperatura. Vai ser um resfriado, mas é um bom preço a se pagar quando as estrelas nos dão ideias, chaves para o interior de nossos pensamentos.
Uma cerveja, algumas teclas, um bêbado cambaleando na esquina, falando consigo mesmo. O cenário parece ser comum, mas a sensação é estranha. É uma tentativa de relaxar que acaba se tornando uma força incontrolável de uma reflexão sobre a vida, sobre o tudo como é, o hoje, o agora. Janelas fechadas no campo de visão transmitem a verdadeira ideia de madrugada, a hora do sozinho, e do nada já são 3h. A 1h que passou, como se fossem minutos, embebedando a alma com lúpulo e cevada enquanto o queixo bate e o vento corta de leve, como uma faca que passa lentamente pela pele.
Os olhos vermelhos talvez reflitam e deem uma sensação de progresso. E tal progresso acaba se tornando uma dúvida tão cruel, chave para muitas questões que talvez definiriam caminhos. Será que tal sensação pode ser julgada como positiva? Muitas vezes a solidão transmite na mente e acaba tornando tudo mais pessoal. Ela te acostuma na medida em que tu passas tempo com a sua companhia.
Eu ouço passos na rua. Indigentes vestidos com camisas sociais, sapatos baratos e um dom para gritar. Baderneiam, berram e falam palavrões. Todos vítimas da luxúria de uma sexta-feira que me cheirou a progresso. Eu olho pra eles, tento me colocar no lugar deles, até que vejo que precisaria de mais 2 ou 3 cervejas. É tudo medido na base do álcool, da loucura, da libertinagem. Enquanto eles festeiam, gritam e berram, meus olhos ardem, minha cabeça dói, e de súbito eu me encontro parado em uma sacada, com um frio do cacete às 3:30 da manhã. Foi uma boa noitada, apesar de tudo.
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