sábado, 21 de janeiro de 2012

[Dica de Filme] O Sétimo Selo (1957)

Eu nunca fui lá muito fã de filmes antigos. Mas como clássico é clássico, ou se você gosta de filmes antigos, O Sétimo Selo é uma obra-prima obrigatória. Tão atual quanto na época em que foi lançado, o filme suíço trata do assunto mais antigo da humanidade: a morte. A trama se passa na Idade Média, durante o período da Peste Negra, uma das passagens mais obscuras e terríveis que a Humanidade já passou, onde um cavaleiro regresso das cruzadas acaba recebendo uma visita da própria Morte. Questionando e com dúvidas a respeito de suas crenças religiosas, o cavaleiro então desafia a morte para uma partida de xadrez, com o intuito de ganhar mais tempo vivo e na esperança de que O Ceifador responda as perguntas sobre a existência de Deus, do Diabo e de uma crença espiritual maior. Durante o seu "tempo a mais de vida", o cavaleiro percorre diversos locais característicos da Idade Média e faz amizade com uma família de atores, que acaba por desempenhar um papel fundamental durante a execução do filme.

Além de ser a retratação mais realista do período medieval que eu já tinha visto em um filme, o assunto sobre a vida após a morte e a crença em religiões é colocado de uma maneira totalmente metafórica. Ao meu ver, temos que o cavaleiro é o questionador, um ser humano visionário que, após um longo período servindo ao comando de Deus, passa a questionar não só a sua existência, como também o sentido da vida. Filosofias a parte, a Idade Média não poderia ter sido tão bem descrita. Não há nada de cavaleiros em armaduras esbeltas, grandes castelos e camponeses felizes. Vemos na tela a total degradação da raça humana junto ao período mais negro da história da nossa civilização. Pessoas desesperadas com a peste negra, padres e bispos clamando perdão a Deus pela chegada do juízo final. Tudo é retratado de maneira tão simples e realista que acaba por abrir os olhos ao período medieval, mostrando que realmente não foi fácil passar pela Idade das Trevas.

Voltando ao xadrez, o jogo acaba se tornando a metáfora principal do filme. O ato de "jogar com a morte" retrata todo o medo que sentimos pelo nosso destino final e a dúvida do cavaleiro não é nada mais que a Pergunta Fundamental, a real verdade por trás da realidade em que vivemos. A magistral frase de que "não se pode enganar a morte" é retratada durante a partida, com as vãs tentativas e estratégias do cavaleiro para tentar vencer o duelo.

Mas não se iluda, meu caro leitor, o Sétimo Selo é um filme antigo, e como todos os filmes antigos deve ser visto como tal. Não espere que a perfomance dos atores ou a trilha sonora o surpreenda em pelo século XXI. Se de fato o surpreender, só mostra mais uma vez o porque do filme ser um clássico do cinema mundial. Não assista o filme em busca de diversão. Também não espere diálogos complexos ou debates altamente filosóficos. O filme retrata as questões polêmicas sobre a morte de uma maneira simples, com perguntas diretas do cavaleiro ao Ceifador. O filme deve ser interpretado de acordo com o contexto na qual ele foi produzido. O tabuleiro de xadrez, as perguntas do cavaleiro e também a perfomance de todo o ambiente medieval deve ser levada como numa peça de teatro, onde a atuação não é nada mais do que uma ferramenta para a transmissão de uma reflexão muito mais profunda no final. É uma visão totalmente simplista e alternativa do nosso destino final, que talvez o ajude a traçar novos pensamentos para tentar compreender a questão mais antiga da raça humana. 

2 comentários:

Rafael Mendes disse...

Este filme é maravilhoso. Gosto muito dos filmes do Ingmar Bergman, principalmente por ele tratar de temas universais de forma tão inteligente, como no caso do Sétimo Selo.
Só que, como um entusiasta dos filmes antigos, preciso tecer alguns comentários em réplica as tuas opiniões. Primeiramente não acho que seja um filme de efeitos visuais ruims (o que deve ser colocado em contexto e "Watch out, we got a motherfuck of visualeffects over here") ou interpretações fracas. Os filmes dessa época, e principalmente de ingmar bergman, tem uma forte relação com o teatro, o que ocasiona um certo estranhamento para nós humanos do século 21 e seus homenzinhos azuis ( Avatar ) - que privilegia única e exclusivamente a experiência visual do telespectador, deixando de lado todo o resto necessario para ser uma obra cinematografica. Mas essa estranheza nada mais é do que um estilo muito, MUITO, cheio de significado. Para os efeitos visuais, sim, acredito que deve-se colocar no contexto o filme para entender, talvez até, relevar os efeitos especiais e "tudo bem, ele tentou" - perto do que estamos acostumados hoje - mas, esse filme não tem necessariamente uma ânsia por um contexto(não me lembro agora, mas ele talvez tenha sido impulsionado por um algum fato da época), pois ele usa um tema universal. Tão atual em 500 a.C como será em 32243889 d.C. : a morte.
Me alonguei demais no comentário e me perdi na idéia, mas acho que era isso que gostaria de dizer.
No mais, teu blog continua muito bom, sou um frequentador de ocasião nele. Abrçs

Felipe L. disse...

Grande Téder! Obrigado pelo apoio e pela participação! De fato, para pessoas que já são entusiastas de filmes antigo, o meu post pode ter soado de uma maneira um tanto "exótica". Na realidade, o último parágrafo acabei por levar em conta o pessoal que aprecia de fato o cinema mas que talvez não se sinta familiarizado com formas diferentes de filmagens. Eu mesmo não me sinto devidamente preparado para comentar de maneira mais profunda obras complexas e antigas como O Sétimo Selo. A sensação que tive era de que estava vendo uma peça de Teatro mesmo.

Quanto à contextualização, Acredito que muita coisa no filme pode ser "colocada dentro de um contexto". É claro que às vezes é como tentar achar rostos e desenhos em uma nuvem de fumaça, cada um vê o que quer. No mais, o que eu "vi" foi aquilo postado no comentário! Mais uma vez valeu pela força ;)